Existo demais
Não sei em que pensar. Penso em algo que poderia ser interessante, mas não sei se será suficientemente importante perder tempo a pensar nisso. Penso em algo diferente, mas a mesma dúvida ocorre novamente. Não sei o que poderia ser minimamente importante...e penso nisso. Nada parece valer realmente a pena, no entanto tudo parece ser tão interessante. Mas o que é realmente importante, não sei. Tudo aquilo em que tenho pensado já provou, várias vezes, ter sido uma perda de tempo. Não tenho tempo para perder tempo.
Não sei se o que penso continua a ser uma perda de tempo. Mas talvez não tenha perdido tempo. Se calhar, todo este tempo perdido se resumiu ao próprio acto de pensar. Talvez, se não pensasse, o tempo não se teria perdido... mas qual seria o interesse da coisa? O interessante e a perda de tempo parecem ser opostos que se atraem. Mas talvez essa atracção seja o único elo errado. A única peça defeituosa na construção harmónica do universo.
Se pensar não passa de um instinto que adquirimos por sobrevivência, pensar equivale a poupar tempo. Mas se pensar em algo errado se identifica com perda de tempo, é preciso saber o que é errado pensar, para descobrir o que é correcto. Tanto o errado como o correcto, não passam de axiomas definidos pela sociopatia que lidera a sociedade. Conceitos, ideias e memórias, que definem preconceitos sociológicos, são naturais no instinto de cada ser humano. Logo, o errado e o correcto são conceitos definidos por preconceitos generalistas, que nada interessam à sobrevivência. O que é curioso, é saber que a sociedade “pensa” que, para sobreviver, precisa de ocupar a mente de cada indivíduo que a alimenta. (No entanto, cada elemento individual não precisa de lutar pela sua sobrevivência, já que o ser humano é a raça que “domina” o planeta terra.) Uma tentativa desesperada de fazer acreditar que, só assim, a vida tem sentido. Mas, sem rumo, esse sentido não existe.
“Sobreviver” deixou de existir, e foi substituído por “viver”, ou “saber viver”. Tudo o resto foi deixado para trás. “Eu sou uma pessoa, não sou um animal!”. Os instintos foram esquecidos, e tentados adormecidos por conceitos, ideias, memórias... preconceitos, julgamentos, traumas...
Tudo parece ter sentido, mas nada parece ter... lógica. É como se o destino fosse um rio de reacções aleatórias em cadeia. Mas tudo mostra um certo padrão. Por muito difícil que seja de identificar, ele está sempre lá, à espera de ser encontrado. Mas, com tantos outros padrões a ter em conta, este passa tão desapercebido que nem existe. Pelo menos para a maioria de alguns.
Tento pensar em algo que me faça apreciar a vida, visto que não preciso de pensar em lutar pela sobrevivência. Nada parece funcionar, excepto actos singelos e/ou ingénuos... instintivos, talvez. Reacções que não se identificam com a minha personalidade, mas sim com a minha natureza.
Se a personalidade de cada indivíduo muda de dia para dia (ou será que há gente que insiste em se manter igual durante uma vida inteira (mesmo que não o consiga)?), então “personalidade” não é um termo definido mas sim uma definição abstracta, ou mutante. Se cada um tem a sua personalidade, e se esta muda de dia para dia... para que serve esse axioma? Esse...e qualquer outro? Aquilo que eu defino por incerto pode ser mais certo para ti, leitor, do que para mim...ou o contrário. Se cada palavra que escrevo tem uma interpretação diferente de acordo com a personalidade mutante de cada um, de que me serve escrever? Estarei eu sedento de ser mal interpretado?
Penso em algo inútil, mas interessante. E penso noutra coisa efémera mas importante. Não sei exactamente o quê, mas isso não parece importar muito. Talvez por ser efémero...como o tempo que perco a escrever.
