Breu
O mundo está a apodrecer lentamente, mergulhado num ar viciado em banalidade. Um anjo negro cai a pique na serra, parece uma ave de rapina num voo rasante à procura de comida, mas tomba desmaiante no cume, originando uma pequena nuvem surda de poeira e cinza. Tudo o resto é silêncio que cheira a morte e a putrefacção. Entranha-se em cada uma das duas narinas, e invade-te o pensamento. Entrelaça-se nas tua decisões, e o pânico nasce lenta e dolorosamente. À tua direita, consegues (fazer) sentir o teu subconsciente roçar nos delicados pelos que tens na pele, e percepcionas um mundo mágico e louco, mas bonito. Essa ilusão sensorial faz-te suspirar, e quando voltas a inspirar, quando voltas a repor ar nos teus pulmões, deixas de te sentir... O ar, que te sabe a ácido, fala contigo e diz-te que te está a desfalecer, e aconselha-te, numa voz quente, calma e paternal, a deixares-te levar. Pensas em fechar os olhos, e 0.04 segundos antes das pálpebras tocarem uma na outra, memorizas a última e derradeira imagem antes do negro de breu final: um anjo negro, majestoso, que voa a pique na tua direcção, e te separa cuidadosamente dos teus globos oculares, arrancando friamente toda a força de viver que já não tens.
