13 à 6a

Só acredita quem quer. Quem não quer, pode acreditar na mesma.

sábado, abril 26, 2008

Sentes

Sentes tudo. Sentes o peso do teu corpo, o coração bombeia o sangue quente pelas veias, e a tua pele pulsa, fazendo dançar os pêlos que te fazem sentir todos os gestos do vento. Sentes o espaço que te rodeia, os pequenos objectos que te fazem companhia testemunham contigo este teu momento único. Sentes todos os aromas que respiras, e engoles saliva na esperança de os sentires com o teu paladar. Sentes até os pequenos sons que chegam até ti, viajando pelas partículas de ar, que sentes a vibrar até atingirem o teu ouvido... O vento roça pelo teu pescoço, beijando-te ao de leve, e sentes um arrepio que te faz minguar a pupila dos teus olhos, que sentes estarem agora mais fechados.

Sentes tudo o que te rodeia, tudo aquilo que pensas. Todos os teus gestos, todos os teus actos te fazem sentir assim.

Sentes, apenas.

No entanto, nada mais entendes. A tua vida não passa de sentimentos. Não te emocionas. Os sentimentos (que te fazem sentir apenas) descontrolam-te. Desinfectam-te de toda e qualquer emoção. És uma pessoa sensorial, e não entendes a essência do axioma emoção.


Sentes uma lágrima a escorrer-te pela cara. Percorre, lentamente, um caminho já familiar. Um pequeno pêlo facial tenta segurar essa lágrima sentida, mas esta está tão carregada que continua o seu caminho, fazendo do pêlo uma ajuda para continuar, em vez de um obstáculo. A gota salgada cai e dissolve-se na areia, carregada de...

domingo, abril 20, 2008

Object(iv)o Isolado

Os sons são graves, profundos, e lentos. Todo o ambiente parece mover-se em câmara lenta. O que se passa?

Procuro alguém que não me vê (os seus olhos parecem estar parados no tempo. Um olhar fixo que se direcciona para o abismo do previsível...) Os seus passos errantes parecem escorregar lentamente pelo chão molhado por uma chuva de primavera, e o pensamento direcciona-se totalmente para o equilíbrio do corpo (não vá ele cair). Mais nada. Todo o seu intelecto desvia a sua atenção para a base escorregadia, que se torna num obstáculo difícil de ultrapassar. Infelizmente, o seu único obstáculo. Mais nenhum. O seu percurso é uma linha quase recta, com poucas curvas, e nenhum atalho. A imaginação e a criatividade é algo que não faz parte deste objecto em movimento, deslizante num atrito inconstante. Com o único objectivo de se manter no equilíbrio. O único. Mais nenhum.

Todos os sons se esticam pelo lento tempo, e repartem-se gradualmente em milhares de pequenos pedaços que desaparecem, um a um, no escuro do silêncio. Um raio de sol refracta-se na pupíla do meu olho, e para onde quer que olhe depois, vejo a sua forma. Olho fixamente para ela. Também esta escorrega, não pelo chão molhado por uma chuva de primavera. Antes, flutua pelo ar, pútrido e fétido da primeira das realidades. Uma nódoa amarelo-luminosa, volúvel num espaço carregado de óbvio e aparências. Procura, timidamente, um local seguro, algo que a possa abraçar e aquecer, fazê-la sentir que ali o mundo nunca mais acaba... Mas nada que seja longe de mim a parece convencer. Falo com ela com o olhar, mas nada acontece.

...

Abro a minha mão, e ela vem ter comigo instintivamente. Pergunta-me "quem és?" só pelo toque, e eu desmaio pela primeira vez na vida.

Quando acordo (o seu sapatinho-de-ir-ao-figo escorrega, mostrando que ele se distraíra da única coisa que sabe fazer como deve ser. Removendo o factor velocidade, nada mais se alterou.), reparo que tudo voltou ao normal. A um "normal" que nunca antes tinha visto.