Aquela caneta
Envolvido pela escuridão, relembro o passado de uma forma suficientemente familiar que me parece tão pouco distante. A presença de uma vela imaginária desconstrói rapidamente esse prisma negro em vários objectos, cada um com o seu significado. Um rasgão de uma folha A4 com uma nota escrita (não sei se é algo que ainda não está feito, ou um papel para deitar fora), uma prenda de anos (ainda hoje, não sei que utilidade dar àquilo), uma carteira fechada que uso todos os dias (quanto tempo passámos juntos... quantos dias tem a tua memória?), as chaves (representativas de abrigos sinceros), aquela caneta (“aquela” caneta... a história daquela caneta)...
A chama da vela imaginária treme (não sei se de medo), sugerindo à minha consciência que não estou sozinho. Os objectos (que estavam já inconscientemente memorizados quanto ao espaço geométrico), dissolvem-se com o negro predominante, e o passado outrora distante parece agora mais presente... mas diferente. Desta vez, o passado não é presente, porque o futuro invade esse lugar. O presente passa continuamente, e o passado parece não ocupar lugar... porque o saber está no presente.
A vela apaga-se com a minha imaginação. Sou absorvido pelo vácuo como efeito secundário, e disparo uma luz cortante, que se desintegra espectralmente pelo prisma negro, a toda a velocidade. E o que ficou? O que sobrou para contar todos os segredos que tinha guardado?

2 Comments:
Os limites da imaginação são aqueles que quisermos definir... a caneta pode contar a história, mas sem história nem caneta haveria....
Afinal é "aquela" caneta a que conta e a que cria.... Será mesmo uma caneta....
escreves bem...as palavras flutuam (seja o que for que se possa interpretar disto)
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